Estive longo tempo ausente daqui. Reconheço que o pior problema dos blogs é mantê-los, se você não vive dessa função. Mas tentarei voltar para resguardar espaço para a rodada eleitoral 2014. O Facebook tem sido um caminho que utilizo. Reunirei abaixo três postagens recentes - de 27 e 28 de agosto e uma de 31 de agosto. O tema é a conjuntura, mas particularmente algumas críticas e ponderações sobre a senhora Marina Silva.
Seguem, pela ordem cronológica:
31 de agosto
Os analistas da bolsa observam vezes muitas um fenômeno conhecido como efeito- manada. Não é segredo que muitas vezes ele ocorre também na política; às vezes imagino que até mais. Fernando Henrique, como exemplo, o vivenciou na campanha de 1994 - aquela do plano real, campanha onde Lula falou aos surdos e, de certa forma, também em 1998. No caso, houve apenas uma liderança distanciada e nenhuma virada. Agora a senhora Marina Silva vem se beneficiando de um efeito-manada. Observemos: ela infiltra-se no PSB porque lá garantiria um posto importante para o partido que, de forma absolutamente incompetente, não conseguiu criar. Até o Paulinho da força criou o seu e a invenção da aliança PSDB-DEM de SP, Gilberto Kassab, o fez um pouco antes. Após a entrada na chapa que "queria mais"de Eduardo Campos, lá ficou em hibernação. Com a infeliz morte de Campos, ela saiu do esconderijo e, em uma semana torna-se candidata. Uma parte do PSB não quer, mas fazer o que? Em cerca de uma semana tudo gira ao seu redor: ela ganha coordenação de campanha, vice esquisito com apoios esqusiitos, progama coordenado por acionista do Itau, apoios religiosos e outros nem tanto. Saiu dos 8% de Campos para 20% no inacreditável datafolha da boca de túmulo e chegou já perto de 30% no Ibope. O péssimo quadro que é Aécio Neves - ainda que melhor que Marina, dado seu chao partidário e a base mais racional de debate - parece ter desaparecido ou estar em vias de. Versão de "amigos" (com esses eu romperia) dá sinais de que poderia desalojar a campanha sonolenta de Pimenta da Veiga e ser candidato em MInas. Deve ser boato, pois isso seria um atestado de suicídio, mas abriria-se o canal para Marina plebiscitar a eleição segundo seu evangelho e o PSDB marcharia para apoiá-la, exatamente como namorou com Collor no passado durante seu desgoverno. O fato de que isso seria um redutor de bancada na Câmara e no Senado deve pesar na decisão dos tucanos .... ou deveria!
E DIlma?? Bem, o sinal amarelou de vez. Os termos de sua campanha, montada para enfrentar Aécio, precisa mudar agora. Agora não basta ter feito muito, mas muito mais nos últimos 12 anos que outros em 8. Não basta mostrar a redução da desigualdade, dos enormes investimentos sociais, o mais médicos, as universidades, o PRONATEC. Os eleitores que chegaram agora, reduzindo os indecisos dramaticamente, não a desejam ou porque odeiam o PT (isso existe em uma parcela do eleitorado), ou querem algo vagamente novo (dado os limites do sistema político formal e uma insatisfação difusa) ou votavam em Aécio porque não queriam Dilma. Agora a concretude de Dilma é sua adversária; o mundo simbólico, da candidata "encolhida", humilde, incompreendida e contra "o que está ai" é que veio ao cenário. Contra isso, a luta é muito mais complexa, pois a racionalidade técnica não é adversária para a ética de convicção que atende aos apelos difusos e a combinação exdrúxula de verdismo com capital financeiro, de menções anti-crescimento com sustentabilidade. A Petrobrás voltou a roda ... com restrições de Marina ao Pré-Sal; seus assesores criticam o BNDES, gastos públicos sociais e em investimento direto e falam em retomar fortes superávits primários. Foi para isso que passamos 12 anos? Para tudo retornar como farsa, com roupagem verde?
DIlma é prisioneira de seus erros. É hora de corrigí-los olhando para quem sempre a apoiou. Seu caminho é pela esquerda, não existe escapatória. O pacto que Lula inaugurou - com setores médios e parte da burguesia industrial - não pode mais ser retomado nas mesmas bases. É hora de olhar mais para baixo e para o meio, para setores emergentes retomar interlocutores e criar bandeiras em defesa da produção de bem-estar e contra o rentismo do arrocho. E tornar-se forte, firme, nominar as pessoas e as coisas pelo que elas são. O cavalo de tróia do conservadorismo econômco está chegando. É hora de barrá-lo. É enfrentar os adversários mostrando o que pode ser feito e o que essa candidata dos bancos, de parte do agronegócio e da indústria de SP e alguns outros lugares (Indústra asfixiada e que vai ficar ainda mais se nada acontecer) e das elites politicas conservadoras e neoconservadoras, sem contar a direita religiosa.
Giostaria mesmo que Dilma se lembrasse de Brizola. Ela começou no PDT e uma vez ela falou de sua importância. Lembra como Brizola tratava seus adversários, DIlma? Lembra-se desse vídeo?
https://www.youtube.com/watch?v=SGNGgkII2lU
Aqui não trata-se de uma "filhote" da ditadura. Sua origem é mais honrada. Mas seu futuro, o cheque me branco que pede dada sua falta de ideias, ou sua ocultação, nos faz lembrar os anos de bronze (pois de chumbo eram aqueles da ditadura) da hegemonia FHC, Paulo Renato, Malan, Serjão,Armínio, Antonio Carlos e Borhausen. Por favor, de novo não! Merecemos mais que isso.
28 de agosto:
Muito se tem falado sobre Marina haver mencionado as elites e observado Chico Mendes como tal. O campo teórico onde isso se localiza é a teoria das elites e, sim, a candidata tem razão. Mas, como todos que empregam essa linguagem, com a qual pode-se identificar e interpretar o mundo, é preciso qualificar melhor a fala. O que ela não faz. O discurso foi para desviar a atenção de si própria e da crítica ao apoio que recebe de parte das elites econômicas (parte expressiva) e de parte das elites políticas tradicionais (esquisito para quem apoia uma "nova política"). Não é nada sofisticado. Aliás, por falar em campo teórico, seria bom que Marina lesse sobre etnometodologia ... talvez ajudasse mais. Mas ela não terá tempo. Discutir o programa de governo com as elites que a apoiam dará muito trabalho e a Neca e o Gianetti são exigentes. E sobre a "nova política" e os economistas liberais que a apoiam: se ela romper com eles, mergulha no caos; se os apoiar, o país regride. Isso é opção?
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Li agora cedo um post onde se falava em uma "central" contra Marina e em blogs "chapa-branca". Agora que o debate começou e Marina vai descer do altar, busca-se interditar o debate como se ela fosse caluniada e vilipendiada. Não tenho o menor interesse em caluniar Marina Silva, a respeito como candidata, mas abomino sua falta de consistência e competência política, suas ideias vazias e sua ideologia conservadora em termos econômicos e comportamentais. Não faço parte de nenhuma "central", não tenho interesse nenhum em interditar o debate e me reservo o direito de opinar e não gostar de sua "santidade". Se o país preferir um cheque em branco (com Marina) ou o passado é uma decisão do jogo. Mas começar a espalhar boatos sobre "centrais" (Aécio fazia a mesma coisa, chegou a pedir que sites fossem censurados por isso), mostrar incompreensão sobre a "corrupção" na Petrobrás (por que ela sempre volta, mesmo sendo a maior empresa da América latina e possuir uma das maiores reservas de petróleo do planeta?) e repetir o mantra de que "ninguém aguenta mais" (não aguenta o que exatamente? A "inflação"? ou outra coisa?), não ajuda em nada o debate entre sujeitos civilizados. Se as pessoas não desejarem votar em Dilma podem fazê-lo por múltiplas razões. Mas, por favor, pelo menos com argumentos mais sólidos. Ontem tb li um post interessante onde falava-se em um sentimento difuso de voto em Marina Silva. Pode ser. Eu espero que essa sensação de mal-estar possa passar. Quem não aguentaria mais outro tempo com os grandes economistas e bancos que apoiam qualquer um contra Dilma sou eu e alguns outros milhões. Espero que possamos obter maioria. Mas o debate deve ser mantido nos limites da racionalidade: "centrais", "blogs chapa-branca", atacar a Petrobrás ou falar em inflação descontrolada que não existe ajuda apenas como retórica distorcida. Aliás, se existem blogs chapa-branca a grande imprensa é o que? Um folheto da missa, ops, culto????
27 de agosto:
Ontem saiu uma pesquisa IBOPE mostrando que, HOJE, Aécio estaria abatido em vôo e Marina venceria as eleições. Sim, lá diz que Marina venceria! Ressalto HOJE, porque pesquisa é captação de movimento. Explico: nesse momento da campanha eleitoral são aceitáveis movimentos, alguns mais largos outros mais estreitos, na morfologia de voto. A julgar pelo IBOPE, houve um deslocamento morfológico de MILHÕES E MILHÕES DE VOTOS em menos de 2 semanas, retirando algo como 4% de Aécio, 4% de Dilma e mais de 6% dos indecisos. Na margem de erro, ela encosta em Dilma. Não sou daqueles que demonizam o IBOPE, mas há muitos meios de perguntar e captar movimentos. Não tenho certeza do que fez o Instituto, mas é pouco provável que um movimento tão violento tenha ocorrido com tal velocidade. É possível? É! É muito provável? Não tenho certeza nenhuma disso. Vai permanecer e crescer? Não creio. E por que? Porque precisamos nos debruçar sobre uma explicação.
Não é movimento puro e simples, é tectônico. A julgar pelo resultado, havia um movimento profundo no tecido social contra os candidatos e naqueles que não desejavam mesmo votar. Depois que o Datafolha fez das suas inaugurando a pesquisa de boca de túmulo, o IBOPE foi a campo (com metodologia relativamente diferente do datafolha, como sempre fez) e captou uma rebelião em favor da seringueira dos bancos. Escrevo isso por ironia mesmo, porque creio que Marina é um atraso, obscurantismo, servil ao modelo representado pelo rentismo e não apresenta nenhuma ideia sobre o que seria seu governo. Dilma tem o que mostrar; Aécio representa, com toda sua personalidade limítrofe, algo mais racional como programa e Marina, bem, Marina "não quer desistir do Brasil". Alguns dizem que ela escapou do ódio das "jornadas de junho". É suficiente? Não sei. De onde vem os votos? Do Brasil mais profundo, dos mais ou menos escolarizados? Qual o grau de conhecimento dos candidatos entre os eleitores? A questão é uma pergunta que os Institutos fazem e não vemos a resposta: "o sr/sra já decidiu seu voto ou pode alterá-lo até as eleições"? Com variações, mas esse é o espírito da questão . A avaliação do governo não caiu (variou positivamente na margem de erro), nem a rejeição se alterou tanto. A surpresa é que a candidata do Itau tenha apenas 10% de rejeição. Não me lembro de outros levantamentos, agora, para comparar. Enfim, ao invés de comemorar ou odiar resultados é hora de pensar, dando alguma confiança ao levantamento do IBOPE (minha boa vontade kantiana), tentar compreender o que aconteceu. Isso não muda opções de voto, mas evita fazer comentários idiotas citando inflação, corrupçao ou colunistas da veja, da folha, do globo ou do estado. Por hora Marina é um pastel de vento que está inflando ... será que fura???
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O debate político resvala para a irracionalidade, que de resto não é estranha a nenhum processo eleitoral disputado. Há algum tempo ouvimos falar em "inflação". Mas espere: inflação descontrolada, cesta básica subindo descontroladamente? Mas FHC entregou o país com inflação duas vezes maior e não se dizia isso. Certo, o crescimento é baixíssimo. Mas como ignorar que a taxa de emprego é alta? Volta o argumento: sim, mas o emprego é de baixa qualidade. Pode ser verdade para muitos empregos, mas, e a renda? Ela caiu? Entendo as dúvidas sobre Dilma: menos diálogo e mais decisão top down, mas daí a criar uma crise estratosférica, vai longe. Aécio é um dos piores quadros competitivos - e são poucos - do PSDB: limítrofe em opiniões, raso e sem imaginação. Marina Silva não é apenas uma, mas duas incógnitas: ambientalismo próximo dos bancos e renovação com Borhausen e Heráclito Fortes. E com a ilusão do fim do "presidencialismo de coalizão". Ela está em todas as manchetes, primeiras páginas, páginas internas, páginas principais e telejornais. Diz que não faz proselitismo religioso, mas é contra o aborto, o casamento homoafetivo e alhures POR MOTIVOS RELIGIOSOS. Então surgem os idiotas de plantão e encontram nela uma tábua de salvação (porque Aécio é um desastre), começando a afirmar que os petistas se desnortearam, que as pessoas simplificam a realidade, que os blogs são financiados pelo governo ... Os leitores médios da Veja saíram todos do armário, com aqueles que citam Josias de Souza, Fernando Rodrigues,Noblat, Merval, o obscurantismo do Reinaldo ou a simples cegueira idiota de Constantino, sem contar a cobertura do "Estado" (de SP, o de Minas é um lixo alinhado a Aécio) sobre as eleições. Encontraram a verdadeira anti-petista. E depois é "simplificação" ver o processo, do ponto de vista das elites econômicas e de parte das elites políticas, como para superar um projeto de desenvolvimento e retornar com outra perspectiva. Ou Marina não é coordenada pela herdeira do Itau, não é assessorada por Gianetti e Lara Rezende e Aécio não se abraça a Armínio Fraga? É ilusão? São os "blogs de dinheiro público" que dizem? Até os blogs do mercado dizem isso, e com satisfação.
As pessoas devem votar com sua consciência e seu juízo. Mas votar contra um projeto porque tem "inflação descontrolada", "corrupção" (só de um lado?), contra "tudo que está aí" ,não deveria ser motivo. Aliás, duas perguntas: pensando com alguma frieza (somente alguma): por que tanto ódio contra Dilma? Marina Silva e Aécio estão com exatamente quais ideias? Porque "poupança jovem" (perguntem em Minas como é isso!) e essa pieguice de "não vamos desistir do Brasil" é muito, mas muito pouco.
domingo, 31 de agosto de 2014
sábado, 20 de abril de 2013
Margaret Thatcher - "milk snatcher", "iron lady", Primeira-Ministra
Uma das notícias mais acompanhadas nas últimas semanas foi a morte de Margaret Thatcher. A primeira mulher a assumir como premier da Grã Bretanha (1979-90) foi a mais polêmica líder inglesa do século XX. Churchill (1940-45 e depois 51-55) provocava polêmica, seja pelo estilo, as frases de efeito e sua inegável liderança, mas sem o alcance da amplificada presença de Lady Thatcher. Clement Atlee (45-51) foi um impulsionador do welfare state a inglesa, fundando o NHS e nacionalizando ferrovias e portos. Seria o contraponto de Thatcher, ainda que sem o prestígio externo que a primeira-ministra gozou entre seus pares enquanto governou. A regra aos líderes ingleses era mais a discrição que a vontade pública de potência - talvez com as exceções acima citadas mais Ramsay MacDonald, o primeiro trabalhista a ocupar o cargo em 1924.
Margaret Thatcher, muito mais que seu citado par norte-americano, Ronald Reagan, representou uma tentativa de ruptura com o passado. Sua carreira já era longa quando assumiu o principal cargo do Reino Unido: deputada desde 1959, no início dos anos 70 foi ministra da educação, deputada líder na oposição conservadora entre 75 e 79. Há dois fatos políticos relevantes que marcaram sua carreira negativamente e que representam dois momentos opostos de sua trajetória: o primeiro foi, quando ministra da educação de Edward Heath, impôs restrições orçamentárias obrigando às escolas o corte do leite na merenda das crianças entre 7 e 11 anos . Seu primeiro apelido não foi "iron lady", antes havia sido "Thatcher, milk snatcher". O segundo foi o famoso poll tax de 1990, que resultou em sua queda e que mencionarei abaixo. Esses dois momentos indicam tanto sua força quanto sua confiança, ambos os episódios com resultados trágicos para sua atividade política.
Talvez tenha sido ela a única a assumir como premier que possuía formação científica sólida, em química. Desde jovem admirava Hayek, o que ajuda a explicar muita coisa. Sua admiração pelo Institutte of Economic Affairs (IEA) um gueto hayekiano , think tank antikeynesiano responsável pela retórica "menos governo, menos imposto, mais liberdade", auxilia em compreender o resto. O IEA é tudo que o inusitado Instituto Milenium , e seus porta-vozes na imprensa, os também inusitados "veja" e "globo"(com minúscula mesmo), gostariam de ser em território nacional, sem o mesmo discreto charme inglês e com menos inteligência. Da vivência política liberal de Thatcher, e de sua notável persistência e liderança, nasceu um mito da política do século XX, mito alimentado pelos conservadores como exemplo de sucesso e que mais colecionou frustrações - para todos - que resultados positivos. Sua influência e seu legado são outro caso.
Tomemos seu governo. Podem ser listados todos os mantras: privatização, redução de impostos progressivos, ode ao individualismo, corte de gastos, fim do salário mínimo, redução (ou destruição) do poder sindical, dos gastos sociais, do welfare state, da regulação estatal e incentivo à liberalização dos mercados.O neoliberalismo - de Hayek, Popper, Friedman - ganhava dimensão política e, claro, ideológica, definitiva. O histrionismo de Thatcher, parte importante de suas declarações públicas, levou a guerra ideológica à imprensa, universidades, institutos variados e produziu seguidores animados, alguns deles também estimulados por uma ditadura política, como um general chileno cujo nome nem deve ser pronunciado e certo presidente argentino que acreditava em duendes, no livre-mercado e na paridade peso-dólar. Também foi seguida e elogiada por reformistas liberais na Polônia e na República Tcheca, sem contar o lamentável Bóris Yeltsin. Para não ficar apenas em políticos exóticos, temos também curiosos europeus como José Maria Aznar na Espanha, Cavaco Silva em Portugal ou o magnata italiano Silvio Berlusconi. Já no Japão e nos asiáticos emergentes - da China a Coreia (com talvez a exceção de Singapura), ou na Europa da França e da Alemanha, não existe culto ao mito. Afinal, não se pode confundir respeito pela liderança que Thatcher representou com devoção teológica ao mercado que ela dizia ser o caminho da salvação.
Lady Thatcher chega ao poder em uma conjuntura de inflação alta e desemprego na casa de um milhão, greves sucessivas e enfraquecimento dos trabalhistas. O tema do desemprego torna-se uma chave política decisiva. A campanha de Thatcher envolvia o ataque aos privilégios, ao poder sindical e o fim das "amarras governamentais" ao crescimento. Sua vitória terminou representando uma virada importante na vida inglesa, desafiando a própria tradição do pós guerra.
Thatcher triunfou indiscutivelemnte em dois campos de seu longo governo - a guerra de propaganda e a quebra do poder sindical na Grã Bretanha. Sua política de controle de preços foi central nos primeiros anos, bem como a sobrevalorização da libra. O resultado econômico prático, acompanhado da politica de cortes de gastos e subsídios plus privatização é conhecido por qualquer um que acompanha o tema: ampliação das importações, dificuldades na indústria, recessão, desemprego acelerado (esqueçam o 1 mihlão dos trabalhistas, com Thatcher rapidamente avançou para 3 milhões), aumento expressivo da desigualdade. Nos informa Andrew Shefhard que, nos anos 1990, o ìndice de Gini indica expressivo crescimento da desigualdade sob Thatcher, estabilidade com Major e ainda crescimento sob Blair (p.4). E, o mais relevante,
This is in stark contrast to the changes that occurred when Margaret Thatcher was in power, during which time the poorest group gained just 0.4 per cent on average per year, compared with the 3.8 per cent gain of the richest group (p.2).
É importante observar que o thatcherismo adotou o firme propósito político em enfrentar as instituições do pós-guerra e reformar a economia britânica. Os resultados econômicos são pífios - pelo menos para os mais pobres, a classe média e o sistema de bem-estar. Na relação com a Europa encontrou um forte adversário em Jacques Delors, o então presidente da Comissão Europeia que tentava construir um padrão europeu de bem-estar para o conjunto do continente. Thatcher afastou radicalmente a Grã Bretanha de tal projeto, na prática impedindo que este avanço, em meu juízo, se concretizasse. A grande batalha vencida pela Primeira-Ministra foi a disputa da greve dos mineiros, em 1984, onde meses se arrastaram sem solução e ela nunca aceitou negociar. O resultado lhe conferiu desgaste, mas consolidou sua imagem de vontade férrea e que buscou reduzir (ou terminar com) a interferência sindical em comissões estatais, como a do salário mínimo. Neste meio tempo, suas ideias foram ganhando o mundo e, pouco depois, insuflavam a nau do livre mercado pela periferia do capitalismo, na América Latina e na Europa. Aliás: suas não! Como propagandista que era as embrulhava com esmero e as lançava ao oceano.
A política externa da época era uma combinação de anti-sovietismo - onde ela e Reagan mais se acertavam - e anti-europeísmo. A alcunha de "dama de ferro" vem dos ataques à União Soviética, não de outro fato. De meados ao fim dos anos de 1980 a antiga URSS foi bombardeada por Thatcher, Reagan e João Paulo II sem um único disparo, apenas gritando contra o totalitarismo, a agressividade soviética, o desrespeito aos direitos dos cidadãos e a ineficiência econômica. Thatcher estava nesta linha de frente - e a frente. O anti-europeísmo surge como defesa intransigente da Grã-Bretanha e da oposição a qualquer alteração mais abrangente no Tratado Europeu. Mas é outro fato externo que facilita sua vitória em uma eleição intermediária: a chamada "guerra das Malvinas"(1982) que lhe rendeu propaganda e grandes índices de aprovação, mesmo com recessão e desemprego. Sua vitória mais apertada ocorreu em 87, onde a economia quase lhe custou o lugar. Após este momento, Thatcher deu seu ultimo passo em falso: o poll tax.
Proposto em 89 e com entrada em vigor em 1990, foi um imposto que deveria financiar os governos locais. Tratava-se de um tributo per capita, devido por habitante, que deveria ser pago anualmente. Nos melhores moldes republicanos dos EUA, proporcionalmente os mais pobres sofriam mais. Seu resultado foi um motim: manifestações conflitos, desobediência civil. Chega a ser irônico que os liberais, que tanto defendem "revoltas contra os impostos", tenham tido seu bastião mais caro derrubado por uma. Em meio a crise, John Major toma a liderança dos Conservadores - ela dorme em Downing Street e acorda em um banco de jardim na Russel Square.
Então como avaliar Thatcher? Uma campeã liberal, crente fervorosa do livre mercado e liderança indiscutível? Todas as três possibilidades são verdadeiras. A versão cinematográfica capitaneada por Meryl Streep é uma boa versão da história: mais uma personalidade peculiar e forte, uma mulher coerente com seus princípios até o fim e que questionava a si mesma sobre sua liderança. O silêncio do filme sobre economia é evidente. Mas, independente da película, como é possível silenciar sobre sua gestão econômica? Se os princípios defendidos por Thatcher, sua pedra de toque, foram tão disseminados, como não realizar a tarefa? Seria ótimo se economistas liberais explicassem melhor o desemprego, a recessão, o empobrecimento, os impostos regressivos, sem voltar suas baterias, como sempre, para o welfare state. Seria Thatcher, por outro lado, a última expoente da guerra fria anti soviética, combatendo simultaneamente em duas frentes? Pelo fim do socialismo real e pela sua substituição pelo sistema de livre mercado? Uma garantia ideológica de que o regime de bem estar ideal é a ausência do estado social? Novamente, ao meu juízo, sim. É aqui onde a timidez de seu efetivo resultado econômico - desemprego recessão, empobrecimento - contrasta com sua influência e seu legado*. Escrevi acima que a batalha na imprensa e contra os sindicatos ela venceu. Para ser justo, seu programa de privatização, mesmo sem produzir os milagres propugnados, resistiu. Mas, como isso se disseminou? Como estas ideias econômicas, parodiando um texto de Peter Hall, ganharam poder político? Com Thatcher elas ganharam um mito e um símbolo. Seu sucesso na Europa pós-queda do Muro surgiu na terra arrasada do fim da era soviética, onde o Estado, desmoralizado e fraco, colonizado por uma burocracia cega e um partido geriátrico, abriu espaço ao "mundo livre". Assim, o mundo viu o desmantelamento das antigas estatais, o fim dos subsídios, o desemprego e as novas nomenklaturas. Do partido à plutocracia, na Rússia, foi um salto breve. Polônia e República Tcheca imolaram o bezerro no altar do livre mercado e colheram os ventos do empobrecimento e da desilusão. Na América Latina o Chile tornou-se um laboratório de reformas: previdenciárias, do emprego, da educação, da justiça, da privatização. A Argentina passou a década de 90 na mesma toada; o Equador liquidou sua moeda, Fujimori, em nome do livre mercado, produziu formação de quadrilha e o México, pobre México, também se entregou ao fastio do NAFTA e hoje, se os EUA espirram, Ciudad Juarez treme no horizonte e a Cidade do México corre com o analgésico. Da crise e escombros do socialismo real triunfa a marca neoliberal. Da crise das ditaduras e dos fracassos econômicos na América surge a redenção. O tempo encontra a mudança da maré, a política encontra o teatro econômico do livre mercado. Foi aqui que a política também sucumbiu à economia
Quem mais montou o cenário, quem foi a principal propagandista, a redentora do modelo? A Baronesa Thatcher. O personagem encontra o autor. Como uma ideologia - e sua prática - econômica do século XIX ganhou ares de novidade no século XX? Pelo fracasso das ditaduras e como resposta à crise dos anos 70 no capitalismo central e dos anos 80 / 90 nas outras repúblicas latino americanas e do leste europeu. O cenário se armava, os atores se preparavam, o ambiente político se alterava - o resultado foi que a vitória dos conservadores na Grã Bretanha foi um sinal inequívoco de quem as condições haviam amadurecido o suficiente. A percepção disso pelo eleitorado é mais obviamente difusa, mas ficou claro que a adesão aos conservadores havia crescido com notável força. O conservadorismo no Reino Unido havia abraçado também um novo credo econômico que tratou de implantar com notável ferocidade - desregulamentando, liberalizando, cortando. O poder reunido de um conservadorismo liberal, aparentemente contraditório mas evidentemente complementar, como o futuro viria mostrar. Thatcher foi o típico caso em que elemento individual encontra-se notavelmente associado ao ambiente político de tal forma que ele se manifesta como líder, encarnando tanto o movimento mias geral de descontentamento e por mudança - infelizmente, neste caso, à direita. Assim, pouco importa a falta de resultados econômicos e de bem estar, a longa permanência encarregou por lapidar o mito.
Houve uma geração contemporânea de Thatcher que começa na esquerda democrática, que assumiu com este rosto e, no mínimo, terminou naquele de centro-direita. Penso especificamente em François Mitterand e Felipe González. Pretendo desenvolver este raciocínio em outra postagem, pensando no vácuo das lideranças de esquerda e o aceite do jogo nas regras do adversário. A uma esquerda perplexa com a eliminação do socialismo real, a já longa crise econômica, as ditaduras apodrecendo em meio a um Estado que era "forte"como poder de polícia e fraco como regulador por muitas partes do globo, construíram o cenário. A manifestação de uma crise cultural no modelo do pós guerra pareceu assomar no horizonte, com pressões que vinham contra a burocracia e uma nova agenda de novos movimentos. Ainda que uma parte dela tenha vindo da esquerda, e a esquerda democrática no ocidente nada tivesse com o socialismo soviético há muitos anos, foram os conservadores que capitanearam a mudança. Ninguém melhor que Thatcher para representá-los - liderança forte, atendia a demanda de gênero, discursava contra os "excessos" estatais e em nome dos indivíduos. Foi o suficiente para representar, mais pelo símbolo que pelos resultados, a vontade de potência do capital financeiro e do livre mercado. Levaria dez anos para a esquerda recuperar parte das perdas, sem nunca mais ter deixado de conviver com as promessas de cartomante do neoliberalismo.
Margareth Thatcher se foi. O mito permanecerá na mente de muitos de sua geração, mas não deixa de ser irônico que sua saída de cena corresponda a uma contestação tão forte dos dogmas que ela defendeu por tantos anos. A grande crise de 2008, a segunda maior do século desde 1929 (aquela que serviu de enterro desonroso para o liberalismo do século XIX), em grande medida foi a coroação dos anos de desregulação, desregulamentação e rentismo. Os líderes não entenderam a mensagem ... ainda. Cópias "piratas" de Thatcher, como a lamentável premier alemã Angela Merkel, estão sob pressão por sua lógica de austeridade. Por isso a esquerda democrática precisa voltar a pensar como esquerda, parando de jogar nas regras dos adversários e comprando uma ideologia que não pode ser sua. O fantasma de Thatcher ainda paira forte sobre o Reino Unido. No Brasil a lamentável imprensa conservadora, que jamais se assume como tal, lamentou com carpideiras a morte de Lady Thatcher. Na Inglaterra, pouco se viu de apoio a ela, mas, em compensação, a ira explodiu do outro lado. Veja este vídeo da BBC onde se discute se a emissora deve ou não tocar a recente ascensão à parada de sucessos de uma música do Mágico de OZ, sugestivamente The Witch is Dead (veja aqui). Sinal dos tempos. Rest in peace, my Lady. Como gostam os ingleses, keep calm and carry on ... e agora a esquerda, por favor.
* Como informação extra, Tony Blair, em um dos poucos atos mais próximos ao trabalhismo clássico, retornou com a política de salário mínimo.
Houve uma geração contemporânea de Thatcher que começa na esquerda democrática, que assumiu com este rosto e, no mínimo, terminou naquele de centro-direita. Penso especificamente em François Mitterand e Felipe González. Pretendo desenvolver este raciocínio em outra postagem, pensando no vácuo das lideranças de esquerda e o aceite do jogo nas regras do adversário. A uma esquerda perplexa com a eliminação do socialismo real, a já longa crise econômica, as ditaduras apodrecendo em meio a um Estado que era "forte"como poder de polícia e fraco como regulador por muitas partes do globo, construíram o cenário. A manifestação de uma crise cultural no modelo do pós guerra pareceu assomar no horizonte, com pressões que vinham contra a burocracia e uma nova agenda de novos movimentos. Ainda que uma parte dela tenha vindo da esquerda, e a esquerda democrática no ocidente nada tivesse com o socialismo soviético há muitos anos, foram os conservadores que capitanearam a mudança. Ninguém melhor que Thatcher para representá-los - liderança forte, atendia a demanda de gênero, discursava contra os "excessos" estatais e em nome dos indivíduos. Foi o suficiente para representar, mais pelo símbolo que pelos resultados, a vontade de potência do capital financeiro e do livre mercado. Levaria dez anos para a esquerda recuperar parte das perdas, sem nunca mais ter deixado de conviver com as promessas de cartomante do neoliberalismo.
Margareth Thatcher se foi. O mito permanecerá na mente de muitos de sua geração, mas não deixa de ser irônico que sua saída de cena corresponda a uma contestação tão forte dos dogmas que ela defendeu por tantos anos. A grande crise de 2008, a segunda maior do século desde 1929 (aquela que serviu de enterro desonroso para o liberalismo do século XIX), em grande medida foi a coroação dos anos de desregulação, desregulamentação e rentismo. Os líderes não entenderam a mensagem ... ainda. Cópias "piratas" de Thatcher, como a lamentável premier alemã Angela Merkel, estão sob pressão por sua lógica de austeridade. Por isso a esquerda democrática precisa voltar a pensar como esquerda, parando de jogar nas regras dos adversários e comprando uma ideologia que não pode ser sua. O fantasma de Thatcher ainda paira forte sobre o Reino Unido. No Brasil a lamentável imprensa conservadora, que jamais se assume como tal, lamentou com carpideiras a morte de Lady Thatcher. Na Inglaterra, pouco se viu de apoio a ela, mas, em compensação, a ira explodiu do outro lado. Veja este vídeo da BBC onde se discute se a emissora deve ou não tocar a recente ascensão à parada de sucessos de uma música do Mágico de OZ, sugestivamente The Witch is Dead (veja aqui). Sinal dos tempos. Rest in peace, my Lady. Como gostam os ingleses, keep calm and carry on ... e agora a esquerda, por favor.
* Como informação extra, Tony Blair, em um dos poucos atos mais próximos ao trabalhismo clássico, retornou com a política de salário mínimo.
sábado, 30 de março de 2013
Um lugar para Chávez em "outra" América Latina
O problema com este espaço virtual é não tornar-se seu escravo. Me saio perfeitamente bem, porque aqui não posto desde dezembro. Eventualmente volto aqui, vejo as teias de aranha e nem sempre me animo a escrever. Mas alguns temas tem voltado à tona na agenda e creio que sejam suficientemente provocantes.
É o caso da morte do Presidente venezuelano Hugo Chávez. Nada tenho contra Chávez, apesar de desconfiar dos seus arroubos nacionalistas ou personalismo excessivo. Entretanto, reduzir a figura do presidente a este chavão é de uma indigência exemplar, porque emerge daqueles que estão perdendo os movimentos na América Latina naquilo que tange à sua vida política e econômica.
Um dos que esteve em Miraflores antes de Chávez foi Carlos Andrés Peres. De passado mais a esquerda, elegeu-se duas vezes com discurso crítico aos organismos internacionais e credenciado por um programa popular. Já no segundo mandato mudou de rumo, convergindo para a combinação de servilismo político e mimetismo institucional aos modelos de gestão e reforma de corte liberal. Nada demais, era assim na Argentina, no Equador (que acabou com sua própria moeda e assim permanece por não saber como voltar sem custos exagerados), na Bolívia e sua elite política golpista ou privatista (ou a combinação de ambos), no Paraguai, no Chile pós Pinochet e no Brasil até 2002. Mas a combinação infeliz de crise, miséria e reformas mal sucedidas ajudou a conduzir Chávez ao Palácio. Claro que a história é mais complexa, mas Chávez - ou Evo Morales, Rafael Correa, Lugo, Bachelet, Lula ou Kirchner - sem contar Mujica, mais recentemente - tiveram grande ajuda da combinação de estagnação, crescente pressão social, reformas mal sucedidas e uma década de problemas. Esta é parte da explicação da origem, mas diz pouco sobre o que aconteceu depois.
Entre os críticos empedernidos e os defensores acríticos vigora parte de uma miopia em relação à liderança popular e ao conjunto das ações de Chávez. Cabe lembrar que ele tentou antes um golpe de estado pelo qual foi preso e de onde saiu para vencer as eleições. Da mesma forma, a direita venezuelana não hesitou em tentar outro golpe, mais agressivo, prendendo Chávez. Pouco durou - e reforçou muitíssimo a visão da política e das reformas venezuelanas sob o comando do presidente restabelecido. Em uma de suas reeleições, a oposição cometeu o maior equívoco político da história democrática venezuelana e não participou do processo eleitoral. Criou um imenso vácuo e deu à situação toda a possibilidade - legítima - de reformar a Constituição e moldar o país a sua feição. E ainda contando, para isso, com apoio popular.
Chávez impede a oposição de se manifestar? Onde? Os jornais circulam, existem muitos canais de TV privados que fizeram campanha anti-Chávez e estão no ar. O que ocorreu foi mudança ou aplicação de marco regulatório - que também ocorreu no Equador e na Argentina. Até a oposição precisa ter consequência, para evitar a política de ódio e uma sucessão de fracassos. Sem esquecer que estes setores contrários ao Presidente não são um todo ordenado, mas antes são grupos com interesses diferentes e dispersos, da elite oligárquica tradicional até pessoas genuinamente preocupadas com o conjunto da nação, como muitos estudantes e parte da esquerda. Entre estas certamente não se destaca a mídia que participou do golpe contra Chávez nem as viúvas do petróleo que controlavam a PDVSA.
Pois Chávez era (é) inegavelmente popular. Seus laços com os pobres e com as periferias, com programas inclusivos e um nacionalismo destacado, sentado sobre um mar de petróleo sob controle estatal e oferecendo uma vida menos ordinária aos deserdados e esquecidos pela política no passado é a chave de seu triunfo e do imenso cortejo vermelho que se seguiu no triste dia - para aqueles milhares e milhares de pessoas que acorreram às avenidas de Caracas - logo após o anúncio de sua morte.
A invocação permanente de Bolívar, uma referência nacional apropriada por Chávez, tornou-se o sinônimo de sua cruzada. Com Bolívar ele tomou a figura do " libertador" como sua e dos mais humildes, tomando-a das elites oligárquicas tradicionais; tornou Bolívar parte do imaginário local como representante de um socialismo algo confuso. Mas, para ele mesmo e seus milhões de seguidores esta pouco esclarecida ideia de socialismo não tinha realmente importância. Quase poeticamente importava era a caminhada, a adesão popular e o Estado no comando de um processo de mudança. As ideias abstratas e um programa de longo curso com relação " ao início do fim das classes sociais" - sem ironia - não eram a questão. A questão era uma sociedade, parte importante dela, mobilizada em torno de um programa de mudanças. Seu mote era movimento, ação, voluntarismo. Uma democracia "street level", pouco afeita ao jogo da oposição. Incapaz de competir neste nível ela fracassou e Chávez consolidou sua força e seu poder.
Alguns detestam isso? Pouco importa, porque trata-se da vontade do eleitorado. Ainda que persistam dúvidas sobre a força das instituições e dos mecanismos de equilíbrio inerentes a democracia representativa, não se pode acusar Chávez de diminuí-la porque sua base de apoio é popular. No limite das regras ele fez seus mandatos, o que não pode ser dito da oposição golpista que tentou apeá-lo do poder. A Venezuela tem problemas? Claro que sim. Persiste desigual, precisa melhorar a infraestrutura, redefinir o setor petrolífero como alavanca de desenvolvimento econômico e aumentar a diversificação produtiva . Está melhor que antes do presidente Chávez? Sim, lamentavelmente para a oposição venezuelana (para Capriles ou o triste golpista Carmona e a Globovisión), não somente está melhor como agora a sombra de Chávez paira como um fantasma desafiando seus inimigos.
Pois Chávez era (é) inegavelmente popular. Seus laços com os pobres e com as periferias, com programas inclusivos e um nacionalismo destacado, sentado sobre um mar de petróleo sob controle estatal e oferecendo uma vida menos ordinária aos deserdados e esquecidos pela política no passado é a chave de seu triunfo e do imenso cortejo vermelho que se seguiu no triste dia - para aqueles milhares e milhares de pessoas que acorreram às avenidas de Caracas - logo após o anúncio de sua morte.
A invocação permanente de Bolívar, uma referência nacional apropriada por Chávez, tornou-se o sinônimo de sua cruzada. Com Bolívar ele tomou a figura do " libertador" como sua e dos mais humildes, tomando-a das elites oligárquicas tradicionais; tornou Bolívar parte do imaginário local como representante de um socialismo algo confuso. Mas, para ele mesmo e seus milhões de seguidores esta pouco esclarecida ideia de socialismo não tinha realmente importância. Quase poeticamente importava era a caminhada, a adesão popular e o Estado no comando de um processo de mudança. As ideias abstratas e um programa de longo curso com relação " ao início do fim das classes sociais" - sem ironia - não eram a questão. A questão era uma sociedade, parte importante dela, mobilizada em torno de um programa de mudanças. Seu mote era movimento, ação, voluntarismo. Uma democracia "street level", pouco afeita ao jogo da oposição. Incapaz de competir neste nível ela fracassou e Chávez consolidou sua força e seu poder.
Alguns detestam isso? Pouco importa, porque trata-se da vontade do eleitorado. Ainda que persistam dúvidas sobre a força das instituições e dos mecanismos de equilíbrio inerentes a democracia representativa, não se pode acusar Chávez de diminuí-la porque sua base de apoio é popular. No limite das regras ele fez seus mandatos, o que não pode ser dito da oposição golpista que tentou apeá-lo do poder. A Venezuela tem problemas? Claro que sim. Persiste desigual, precisa melhorar a infraestrutura, redefinir o setor petrolífero como alavanca de desenvolvimento econômico e aumentar a diversificação produtiva . Está melhor que antes do presidente Chávez? Sim, lamentavelmente para a oposição venezuelana (para Capriles ou o triste golpista Carmona e a Globovisión), não somente está melhor como agora a sombra de Chávez paira como um fantasma desafiando seus inimigos.
A América Latina mudou muito na última década. Olhou mais para dentro de si mesma, manifesta vontade de retomar o rumo de sua história, incluir mais e reorganizar seus espaços nacionais e preocupada em inserir-se menos inativa à economia global. Isto vem incomodando as elites tracionais, da economia e da política. Não se pode olhar para Argentina, Uruguai, Peru, Equador, Bolívia, Venezuela, o Brasil - e até a Colômbia - e dizer que estamos em um mundo pior e sem esperanças. Os dados não indicam isso, as condições de vida não mostram isso, a dinâmica eleitoral não mostra isso. É o paraíso? Claro que não, ó direita sem fé. Não há mais nada a melhorar? Claro que há, ó incautos conservadores. O Paraguai, para fugir desses tempos, voltou com uma inovação: o golpismo constitucional de 24 horas. Não somos os coreanos, chineses ou tailandeses, ou a ilha de Singapura? Do meu ponto de vista, ótimo. O comparativismo fácil com a Ásia explica pouco e é plenamente a-histórico - PIB, dívida pública ou superávit primário falam alto sobre macroindicadores mas pouco sobre as mudanças no nível da rua ou das condições de vida. Pois é isto que está operando na América Latina: sem golpe, sem ruptura, com respiração pausada. Parte da direita oligárquica pode pedir asilo na Tailândia ou em Singapura e fazer seus negócios por lá ... Ou pode tentar retomar o poder olhando para a rua, as instituições, sem golpe ou respiração acelerada pelo ódio. Muitos deles andam precisando de doses maciças de ansiolítico ... .
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