domingo, 8 de fevereiro de 2015

Som e fúria – a conjuntura e a nova direita

A conjuntura muitas vezes parece desconexa. Fatos isolados ou com aparência de pouca conectividade se manifestam, o que não significa que não gozem de uma conexão mais profunda. Fatos econômicos refletem um padrão na relação Estado/mercado; governo/oposição ou ações aparentemente isoladas de parlamentares indicam o jogo político e de concepções; movimentos sociais e suas concepções e as ações cotidianas da mídia não estão isolados, assim como existe uma relação ativa entre dados internacionais e o cenário nacional. O pano de fundo sobre o qual a avalanche de fatos se apresenta configura um campo político e uma agenda em torno da dinâmica do poder. Não passamos impunemente por 12 anos de governos mais progressistas, mesmo com todos os limites e a falta de ousadia que os caracterizaram ao não enfrentar o poder do rentismo, a mídia das famílias e sua baixa capacidade hegemônica para construir uma coalizão vencedora para os temas da esquerda. Por um lado, persistiu o temor reverencial da mídia e das grandes forças conservadoras e, pelo outro, pelo discreto charme em estar a participar do banquete das elites, sem nunca ser efetivamente aceito por elas. Com tudo isso seguiu adiante, com inegáveis, mas ainda insuficientes, avanços.
Após doze anos, o campo conservador vem colecionando pequenas derrotas, que somadas já representam mudanças importantes. A estratégia incrementalista à centro-esquerda combatendo a pobreza e a miséria, um novo padrão nas relações internacionais, uma estratégia de investimento público se reconsolidando e a ampliação da capacidade estatal são elementos também desarticuladores do campo conservador. A melhora das condições de emprego e renda desafia a resiliente condição social de desigualdade antes perpetualizada, a qual, aliada aos programas sociais, vem mudando muitos aspectos da vida familiar e da sociedade em geral. Em uma palavra: reconfigura o eleitorado e os clientes das políticas estatais, desmonta parte da velha clientela do conservadorismo. É assim que partidos como o DEM se desmoralizaram e hoje quase nada representam por todo o País. Foi em nome disso que o PSB se expandiu nos últimos anos, atuando ao lado do PT no campo nacional (até a aventura Marina Silva) e com prefeituras bem avaliadas por vários estados. Nos segmentos urbanos do sudeste, a disputa PT/PSDB está configurada há algum tempo, assim como no RS. Em PR, SC, SP e MG havia vantagem pequena ao PSDB, o que também se repetia em GO e MT. No RJ, boa parte do norte/nordeste, RS de tempos em tempos, algumas localidades de SP e MG, a aliança em torno do PT, do PCdoB e parte do PMDB, foi mais forte.
Mas isto é o campo partidário. Conta uma pequena parte da história, mas fatos recentes estão a indicar mudanças importantes. A primeira é que a reconfiguração do eleitorado segue e a clientela recente e mais antiga do Estado legitima o programa que conduz o país a partir do ciclo petista. Por todos os estados formou-se uma sólida rede em defesa dos valores consagrados nos últimos doze anos, rede que abraçou a campanha de Dilma no segundo turno de 2014 de forma decisiva. Nem é necessário continuar nesta linha porque isto parece relativamente consensual mesmo para os adversários deste projeto. Para isso, basta acompanhar as declarações das lideranças ligadas ao PSDB/DEM/PPS e do PSB (agora adversário): “bolivarianos”, “comunização”, “mandato deslegitimado”, “perder ganhando”, claro, o “bovino eleitor” de Dilma. Há somente um problema: o “rebanho” obteve mais de 54 milhões de votos.
A derrota de Serra em 2010 foi um alerta muito poderoso para os conservadores. Ficava claro que não bastaria um nome antigo para enfrentar os oito anos de Lula. Ali houve um “ensaio geral” que rendeu frutos em 2014: uma convergência à direita inegável. Cito: o tema do aborto, dos homossexuais, o poder religioso, combinado com uma agenda liberal de reformas “estruturais”, abertura da economia, ortodoxia monetária. Falou-se para a parcela mais conservadora do eleitorado, ao mesmo tempo em que apelava ao tema das reformas para as elites econômicas. O resultado foi a vitória de Dilma por algo próximo de 6 pontos percentuais, portanto apenas ligeiramente maior que a do momento presente (perto de 4 pontos percentuais). As estratégias de mídia foram quase as mesmas: manchetes catastróficas, seletivas, omitindo resultados, caluniando e contribuindo para uma verdadeira farsa, como o hoje notório caso da “bolinha de papel” na cabeça de Serra.
A derrota mudou algo no campo conservador. O “ensaio geral” (antes um conjunto algo inarticulado, mas que exibia sinais de orientação em uma dada direção) revelou que havia um público para o discurso, para parte do nosso geist, deste nosso espírito do tempo. Uma classe média tradicional ressentida, parte de um novo público emergente que poderia sentir suas conquistas ameaçadas, as elites econômicas rentistas e com seus olhos voltados eternamente para o norte, parte do empresariado desejando concessões e os atores internacionais interessados na abertura (ainda mais?) do mercado doméstico e de riquezas como o pré-sal, a grande mídia e todas as viúvas do autoritarismo constituíam um público muito significativo, elementos de um caldo de cultura muito favorável a uma nova direita. Algo irritada com derrotas seguidas, buscou outro caminho. Alguns sinceramente desiludidos e nervosos com denúncias de corrupção, outros com o sucesso pelo menos parcial das novas ações econômicas e pelas orientações internacionais do petismo, somando-se à direita algo órfã, desembocaram na campanha acirrada e raivosa de segundo turno de 2014.
Não é o caso de uma conspiração, mas de uma convergência nos interesses. O que era inarticulado entre o primeiro e segundo períodos Lula, tornou-se um campo articulado de interesses no primeiro período Dilma. O papel deletério da imprensa se agravou e atingiu todos os limites do absurdo, ato que pode ser representado pela desesperada ação do veículo da família Civita faltando quatro dias para o segundo turno de 2014. Mas foi muito mais: anos de manchetes negativas, meias verdades, obras ocultadas, fabricação de fatos (havia até dólares cubanos e o retorno da doença do ex-presidente), o uso proverbial de adversativas e um colunismo raivoso e fundamentalista. Emergiram os porta-vozes do neoconservadorismo: do astrólogo “intelectual” Olavo de Carvalho ao ex músico Lobão; de limítrofes como Danilo Gentil e Raquel Sherazade até deseducados como Reinaldo Azevedo ou Augusto Nunes; outros simplesmente desprovidos de noção, como Merval ou Waack, isso sem contar o colunismo nas emissoras e jornais locais por todo o país, destacadamente em Minas, no Rio Grande do Sul ou Santa Catarina. A parte que cabia aos leitores de jornais e revistas era alimentada por estes porta-vozes; a parte televisiva pelos raivosos apresentadores ou por suaves leitores de notícias como Bonner. A cena jurídica revelou juízes midiáticos no STF e outros menos votados em níveis inferiores. No campo econômico a inflação ganhou contornos de catástrofe, ainda que esteja dentro de todas as metas traçadas pelos próprios mestres do universo; nossa competitividade um “desastre”; a crise internacional não existia – ou havia acabado, ninguém confiava em nós e nossos indicadores estariam no fim. O ambiente cinza e turvo se instalava, falando para o eleitor conservador que podia encontrar irmãos de sangue contra a desagregação familiar, a corrupção e a desordem promovida pela violência. No Brasil, a inflação tornava-se dogma e o governo uma “mentira”, pelo menos na cabeça de parte do eleitorado “cansado” e “contra tudo que estava ali”.
Há situações similares em outra parte do mundo. Cansados da “desagregação moral” e da ameaça do “esquerdismo”, irritados com casamentos entre pessoas do mesmo sexo e com aqueles que desafiavam o “mundo livre” e os valores cristãos, os neoconservadores se abraçaram aos defensores do livre mercado e da economia sem freios e regulações. Nos EUA é o tea party, em referência a um conhecido episódio anterior à independência do país. São os baluartes da moral e do individualismo possessivo, uma direita religiosa ou secular, raivosa e dominada pelo senso comum. No Brasil, o que antes era apenas raiva tornou-se ação sistemática antes, durante e após as eleições. Ela demarca o campo, afirma seus valores, ataca o resultado. Ela deseja minar a legitimidade do pleito e não dá tréguas. Como nos EUA tem seu braço midiático. Ela nasceu na “América” com o nome de “nova direita”, ainda sob o tristemente inesquecível Ronald Reagan, famoso por reduzir os impostos dos ricos, ampliar os gastos militares norte-americanos, e acelerar a desregulamentação econômica que ajudou a criar a crise de 2008 mais de 20 anos depois. Dormitou sobre o governo Clinton, cresceu com o limítrofe Busch Jr. e passou a odiar Obama com todas as forças. Um negro, de nome muçulmano e presidente? Só poderia ser “socialista”! “Um de nós, nunca”!
Não importa se este “socialismo” é fantasia, importa o discurso de ameaça – aqui e lá. Mas socialismo é muito vago para todos. Trata-se de apresentar exemplos mais claros: aqui, defender o
fim do estatuto do desarmamento, não aceitar casamento homoafetivo, rejeitar o aborto de qualquer forma, armar o cidadão “de bem”, demolir o inimigo, acabar com as terras indígenas, promover interesses de corporações midiáticas, reduzir a maioridade penal, demonizar o governo e o Estado “corruptos”. Isso não é fantasia ou conspiração: é ação política de direita.
Surpreendem aqueles que consideram que a dicotomia instalada na política brasileira seja meramente um acaso ou um arranjo inter-elites. Há espaço na esquerda para mais, mas a construção de uma coalizão maior será mais necessária, para além de partidos. Porque a dicotomia reflete algo mais simples: a direita brasileira foi abraçada pelo condomínio PSDB/DEM/PPS (na verdade só vale mesmo o PSDB) e franjas de outros partidos, do PMDB, PP, PR e outros. Por sobrevivência política. Mas isso é o campo partidário: na sociedade ele está em ex-roqueiros, em apresentadores, em entidades, em think thanks de gosto duvidoso, nos analistas econômicos de plantão (todos pensando a mesma coisa) e em organizações civis. É legítimo, é do jogo, pode até ser importante. Mas deve ser chamado pelo nome que tem: uma nova direita, o talibã nacional. Seu projeto pode se articular – já está se articulando – em uma coalizão de partidos a partir de variadas forças. Mas não pode pretender ter o monopólio do discurso nacional. Cabe ao PT e aos setores à esquerda demolir essa busca hegemônica, com mais força e sem aceitar as regras do jogo construídas pelas elites tradicionais e/ou mais recentes. Seu jogo é destrutivo e seu campo é midiático. De certa forma, estão à frente. Eles “perdem ganhando” – nada mais verdadeiro, como discurso, que esta fala de seu candidato, seu instrumento conjuntural, que atende pelo nome de Aécio Neves. O jogo, por hora, permanece aberto. Cabe às forças progressistas contrabalançá-lo, seja por uma estratégia mais agressiva ou até para constituir parte de um novo centro. A nova direita somente não pode discursar sozinha. As consequências são por demais terríveis.

Sobre fatos da conjuntura e a composição de um cenário para análise

O atual momento da vida política nacional exige cuidados. Ao contrário de todas as eleições presidenciais da redemocratização, esta tem sido a única na qual a oposição não aceita a derrota, como deveria ser pelas regras do jogo, e mantém uma interminável agenda de protestos, reclamações e pressões. Na semana da derrota, esta oposição mais o PMDB derrotaram o governo no Congresso sobre a agenda da participação social; toda a algaravia em torno da meta fiscal; tentativas contra as urnas eleitorais, levantando suspeição; a grande ocupação de uma dúzia de pessoas das galerias do Congresso patrocinadas pela direita retrógrada sob os auspícios do PSDB; as pressões pela realização de práticas econômicas derrotadas nas urnas; o tema do impedimento da Presidente que surge a cada segundo nos jornais e entre políticos. No Supremo Tribunal, o impoluto ministro Mendes (que parece ser sorteado para todos os processos referentes ao PT), continua sua escalada midiática oferecendo lições a quem desejar escutá-lo, sempre com críticas dirigidas ao PT.  Felizmente os demais Ministros parecem enfim entender uma regra básica, mesmo Marco Aurélio Mello: é preciso falar dentro dos processos, não para atender imediatos interesses da mídia ou da oposição. Nas ruas, quase nada, exceto os indignados da direita divididos entre os que defendem a intervenção militar e os que querem o impedimento da Presidente, todos os dois mil “cidadãos de bem” na avenida Paulista. Na mídia, o jornal o Globo vem revivendo seus melhores momentos em defesa da ruptura institucional. A diferença em relação ao passado? Sem pregar o retorno dos militares, defende o “golpe constitucional”, modelo consagrado no luminar democrático que é o Paraguai. Os demais veículos continuam insinuando a corrupção como o anátema nacional, ignorando todo o resto.
O mercado, por sua vez, vem pautando a agenda econômica do próprio governo. A Presidente eleita parece ter comprado o prato sem ler o cardápio. Explica-se: parece que ela escolheu a única opção que viu – a do mercado. Veio Joaquim Levy, o mercado suspirou feliz. Bastou Tombini não acenar com o aumento do fluxo de dólares de swapp cambial, no mesmo dia, e lá se foi o mercado bufando de raiva. O cenário internacional desfavorável entre novembro – as más notícias da China, da Europa, da queda no preço do barril de petróleo e até do afrouxar monetário do FED, aliados aos poucos negócios – produziu uma escalada do dólar e perdas na Bolsa. E a Petrobrás continua ladeira abaixo – para o mercado. O mercado gostou de Levy? Por que não desejaria mais?
Em uma combinação de estratégia de sangramento e deslegitimação da Presidente, a oposição vem patrocinado o crime de agravar a situação da Petrobrás. Nada que seja feito por dentro será suficiente. O cálculo político é associar a empresa ao PT e a Presidente, esquecendo todo o passado. Isto está a produzir reflexos no mercado. O caso em pauta na Justiça Federal é uma peneira: a imprensa acompanha tudo em tempo real, os acusados não tem acesso ao processo. O quadro de instabilidade econômica se agrava sem que os agentes tenham a dimensão real do problema. A não divulgação do balanço, pela recusa da auditoria externa em assiná-lo sem conhecer as reais dimensões da sangria (promovida pelo bando que assalta a companhia desde o governo Sarney), não ajuda em nada o cenário. A combinação de um cenário externo ruim com as dúvidas internas sobre a operação lava-jato estão sangrando a maior empresa nacional.
Aqui voltamos sempre ao tema – grifemos: a corrupção é e continua a ser intolerável, todos os desvios devem ser punidos e a quadrilha encarcerada. A participação de agentes privados e a corrupção patrocinada pelo setor privado encontra parte da burocracia das empresas com disposição para a rapinagem; burocracia de nomeação externa como parte dos acordos da “coalizão” de momento, ainda que alguns permaneçam pulando de cargo em cargo sem nada entender de petróleo. Esses agentes públicos não são partidários, a não ser deles mesmos. Eles se movimentam como intermediários para acumular recursos e operar em financiamento de campanhas com a conivência do setor privado. O esquema de financiamento de campanhas por este segmento é uma fonte reconhecida de corrupção. Portanto, quem quer realmente acabar com isso? O impoluto ministro Mendes tranca, com um pedido de vistas, uma ação proibindo o uso de recursos de empresas em campanhas eleitorais. Por que ele não devolve o processo e permite aos seus colegas decidir a ação? Ou então porque os agentes políticos não discutem a sério a reforma política definindo recursos aos partidos oriundos do orçamento e, ao mesmo tempo, limitados? Não custa tão caro assim, desde que o formato das campanhas obedeça aos critérios de informar o eleitor sobre suas opções. As empresas irão continuar tentando ofertar recursos na forma de caixa 2? Caixa 2 torna-se crime, assim como qualquer sonegação deveria ser punida com perda de patrimônio em processos sumários. O mesmo deveria valer para crimes como a formação de quadrilha. Não dará certo? Mas, não seria interessante experimentar?
Estamos diante de um cenário onde o desejo de mudar é latente, eventualmente manifesto, mas o sistema político, o legislativo e o judiciário produzem travas poderosas. Alguns exemplos poderosos de travas políticas: parlamentares votam seu próprio salário, são beneficiários de doações privadas, desejam permanecer indicando diretores de estatais, operam interesses de grupos (e pouco dos partidos). De travas jurídicas: pedidos de vista sem prazo definido, Primeira Instância federal como fonte de vazamento seletivos de informações sobre processos; encantamento com a mídia de juízes e promotores; processos morosos e até sobrecarga de trabalho. Mas, mudar de verdade significaria mudar as travas do mercado, da economia conforme o mercado entende economia: uma consecução de decisões privadas constituindo um mercado auto-regulável, sendo o Estado o garantidor da ordem e dos contratos. Somente isso? Nos sonhos dos economistas de mercado, sim.
O que seria mudar de verdade nesse campo? Muito, mas podemos apresentar o debate em termos de duas, apenas como exemplos: primeiro, seria preciso descolonizar a política da agenda econômica, que a política assumisse o protagonismo da mudança. Segundo, pensar medidas concretas na seara tributária: imposto sobre grandes fortunas, mudanças nas alíquotas de imposto de renda para mais alíquotas e tributação progressiva; impostos sobre herança, tornar a sonegação fiscal passível de  punições realmente severas; reduzir a tributação sobre consumo e enfrentar a questão do imposto sobre valor agregado. Vamos discutir isso? O constituinte definiu uma série de obrigações ao Estado, de saúde e educação universais aos direitos sociais. Não seria hora deste debate? Não para a agenda política, nunca para a econômica. A coalizão de governo a surgir não dará conta de enfrentar esta agenda necessária. A estratégia da oposição é prender o governo na agenda comezinha da “corrupção” (da qual ela, candidamente, diz nunca ter participado) e da “crise”. Enquanto isso, nada muda, o que atende aos interesses imediatos do mercado e da oposição, que não desejam, na verdade, mudar nada, preferem o jogo jogado.
Estes são alguns fatos e este é o cenário.  A relação mercado/Estado, o jogo governo e oposição, os três poderes, a movimentação da sociedade e as relações internacionais (políticas e econômicas – sim, elas também) precisam se reunidos em um todo mais compreensivo, para ultrapassar a superfície da conjuntura. Mas isso precisará ser deixado para outra (ou outras) postagem (ns).

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Fazer o que? Sobre o fundamentalismo de mercado e projetos abertos do centro à esquerda

     O processo eleitoral no Brasil teve seu finados no dia 26 de outubro. A vitória de Dilma Roussef, uma força oriunda de u paralelogramo onde se encontraram programs sociais vitoriosos, resultados econômicos e sociais efetivos, a emergência de cidadãos e cidadãs renovados e, porque não, a uma agenda de centro-esquerda que triunfou. A derrota das forças conservadoras, cuja principal bandeira estava fixa na defesa de  ideias econômicos dos anos 1990 e uma pauta lacerdista dos anos 1950, produziu uma situação onde a direita acredita ter "vencido" perdendo e a esquerda ter "perdido"vencendo. Descontando a mera retórica vazia e as palavras agradáveis aos seus, trata-se de um exercício para um público-alvo bem definido: a massa de eleitores que teriam apoiado a pauta do "mar de lama" e de um neoliberalismo ressurreto. Uma parte dessa massa, facilmente visível como branca, urbana, oriunda das camadas médias superiores, muitos com curso superior, ao lado da fina flor do neoconservadorismo de Bolsonaros ou da direita religiosa, passou a contaminar as ruas e as redes com seu veneno golpista. Aqui está um monstro que despertou, mesmo sem força para disseminar suas sandices ao ponto da ruptura institucional, se maior fosse não hesitaria em apoiar soluções autoritárias.
     O partido que perdeu as eleições, e seu candidato que insiste em manter seu palanque armado, levou no mínimo uma semana para reagir à nau dos insensatos. Antes promoveu a mais ridícula das iniciativas: pedido de auditoria sobre as eleições, mesmo dizendo que não "desconfiava"de nada. A imprensa, sempre ela, não produziu nenhuma condenação firme. Ao lado disso, carros com adesivo de Dilma foram atacados, com registros no Rio, Brasília, São Paulo e Belo Horizonte. Ataques ao nordeste espalharam-se pela TV paga, a internet e em cartazes ofensivos. A semana entre o dia 27/10 e 2/11 foi pródiga em racismo, preconceito, proto-fascismo e assemelhados. Pode ter sido produto do clima de guerra instalado, pode ter sido resultado da disputa, mas foi um resultado muito desagradável. Em parte foi para "azedar" a vitória, mas em parte foi alimentada para uma declaração de guerra permanente. Na mesma semana, o Congresso, presidido por um peemedebista derrotado, mesquinhamente colocou em votação projeto contrário ao Planalto. Um dos piores elementos que povoam o PMDB deseja ser presidente da Câmara. Em seu retorno à Casa, o limítrofe senador carioca-mineiro e seu palanque garante oposiçao sem tréguas. Desejaria muito ver como esse senhor, que pouco lá vai e que nada produz, reagirá quando tiver sua "liderança" roubada pelo PSDB de São Paulo. 
    Neste quadro nebuloso, plúmbeo (diria Jânio), Dilma iniciará seu novo mandato. As forças golpistas, patéticas e limitrofes, voltarão para o buraco de onde saíram até serem novamente convocadas pela nova direita. Nova e não tão nova. Escrevendo no Tweeter, Xico Graziano, quadro importante do PSDB, insurgiu-se contra o proto-fascismo, incentivado pelo PSDB e sua longa demora em condenar comportamentos assim, escrevendo que eles deixem o PSDB que é de estirpe social-democrata. Pausa para rir. Acredito na sinceridade de Graziano, mas onde se encontra a social-democracia de seu partido é um mistério insondável. Tradicionalmente, nunca foi de base operária ou sindical; quando pode abraçou a "novo centro" da terceira via ignorando as pautas de esquerda associadas às organizações sindicais, da sociedade civil e dos direitos de cidadania; encontrou uma justificativa para inserir-se passivamente na globalização e na financeirização e promoveu o desmonte do Estado como prática e uma política econômica cara ao tripé econômico (metas de inflação, câmbio flutuante, rigidez fiscal) como a única saída. Enfim, a social-democracia é um projeto da esquerda do pós-guerra, não uma agremiação para promover o neoliberalismo tupiniquim. O PSDB não é isso, poderia ter sido e nunca foi.
     O problema é que o PT também não melhorou muito sua pauta de esquerda. Em volta de um programa econômico mais conservador, foi necessária uma crise politica e uma crise econômica internacional para que se verificasse alguma mudança. Tal como antes, na eleição de 2010, agora foi o chamado àqueles que acreditam nesse programa de mudança que alteraram os rumos eleitorais. Lula e Dilma não foram eleitos para continuar a obra de Fernando Henrique, seria melhor, então, votar em Serra e Aécio. A mensagem talvez tenha sido entendida ... ou talvez não.
     Mas, porque o clima de apocalipse a direita? Por que o resultado não pode ser aceito por uma parte da sociedade? O envenenamento foi tão forte? Foi, e a direita é respons;avel pela maior desinformação da história recente, confundindo conceitos e preconceitos. senão vejamos:
1 - "bolivarianismo', Cuba e Venezuela. Malgrado toda a descortesia com países amigos, esta discussão é de uma estultice sem fim. É necessário ser mau-caráter, oligóide ou desinformado para comparar países dessa forma, com tal onda de informações incorretas, sem a menor compreensão das diferenças institucionais e desrespeito à história de cada um. Por isso má-fé ou incompetência cognitiva. Sinceramente, a Venezuela até confirmação de mandato tem; Cuba é um regome fechado cercado por um bloqueio econômico e nós somos a sociedade mais completa social e economicamente da América Latina. Sério mesmo que ministro do STF dá entrevista falando em corte bolivarianista? Entendo a preferência partidária do Ministro, mas está ficando um pouco descarado demais.
2 - Ameaça comunista. Como é? Recomendo uma conversa com "camaradas" do PCdoB, do PCB, do PCO, do PSTU. Vejam o nível de apoio, organização e recursos das siglas, como eles lideram a revolução eminente. E todos devem servir ao PT, o grande líder comunista A não ser que exista um comitê revolucionário leninista clandestino que recebe dinheiro de Cuba (mas como? Eles não tem nem para si) ou da Coreia do Norte. Pode ser também da terrível China, o distrito industrial do mundo - para o capitalismo - que pretende implantar aqui uma ditadura para vender seus produtos "comunistas" ao mundo livre (por falar em retórica da guerra fria).
3 - A ameaça de grupos sociais - como homossexuais, ateus, promotoras de ataques à família e defensores das drogas. Sério? Ameaça a quem? 
      Trata-se, na melhor das hipóteses, do fechamento do discurso, do universo da locução, do espaço dialógico. É o fechamento da esfera pública e da construção de outro projeto - alternativo - e associado. É possível se render ao discurso fácil do esgotamento dos partidos e organizações, das gramáticas da modernidade, da necessidade de outros foros. Mas, supondo-se que a pletora de discursos teóricos possa ter razão e outra coisa fosse construída, os projetos não se organizariam? Simples assim: na gramática analítica que leva em conta as políticas públicas, ideologia e orientações não existem projetos distintos? Existem, e a história recente na Europa, por exemplo, é esse o ponto. Todo  o sistema politico recente fecha-se em torno de alternativas de políticas para o mercado. A oposição está em luta constante na parte "de baixo"da sociedade, nos migrantes, nos "occupy", nas passeatas, mas também está no avanço da direita. O que ocorre no Brasil não é isolado, nem fecha-se em nossas fronteiras. A América Latina tem dilemas semelhantes. A Ásia enfrenta crises de maneira diferente. A desigualdade aumentou no centro do capitalismo; nós lutamos desesperadamente para reduzí-la. Nos EUA, a direita, como o "tea party", nem sequer deseja vencer eleições presidenciais: prefere interditar qualquer mudança em nível da sociedade civil.
     Aqui como lá há um conjunto de intelectuais, de uma estirpe especial, que insiste em revestir sua ideologia como ciência: os economistas de mercado, masters of the universe,  senhores das planilhas e herdeiros da verdade revelada. Só existe uma forma, um jeito e uma vida; o mundo é meritocrático; políticas sociais são socialismo disfarçado, a ciência matemática dos modelos econométricos é o evangelho do conhecimento; equilíbrio fiscal, inflação muito baixa, câmbio que flutue, capitais livres, mais mercado e nada de Estado são os versículos do credo. Sua visão de mundo é uma planilha e sua fé o mercado e seus resultados, medidos pelas bolsas, os lucros das transnacionais e a abertura da conta capital e das barreiras tarifárias. É isso, principalmente isso, que representa um dos projetos, que mesmo afastado de aplicação integral com a derrota de Aécio no Brasil insiste em emparedar a presidente eleita com seu fundamentalismo de falsa erudição.
     Então, a "nova política" exige outras instituições e organizações? Outra narrativa? Muito bem. Mas a narrativa dos mercados continuará lá, independente de outras narrativas políticas. A oposição a este fundamentalismo precisa continuar a construir seu campo. O compromisso da agenda neoliberal com a democracia é inexistente, como comprovam experiências asiáticas ou o Chile. Cegos por Hayek ou Mses, acham que mercado é a única garantia da democracia e, como em gerla ocorre, são ignorantes em hisatória. No Brasil, os corifeus da direita são os economistas de mercado, as lideranças lacerdistas e os desesperados conservadores que preferem que a desigualdade persista. Quando Thatcher, de infeliz memória, bradava que "there is not alternative" e era saudada pelo pregão da bolsa, o mote do partido conservador não era apenas neoliberalismo, era também conservadorismo de costumes. Quando Reagan fundou a "reagnomics", os EUA viveram uma "revolução conservadora", cujos traços persistem até hoje. 
     Não trata-se de uma dicotomia nós x eles nem uma oposição simples de projetos. Quem possui um projeto unitário é justamente esta nova direita. Do outro lado existem socialistas, social-democratas, ecologistas, conservadores não neoliberais. Pessoas que não estão organizadas, mas desconfiam do mercado e seus sujeitos históricos totais. A esquerda foi tratada como fundamentalista e, após a derrota do comunismo realmente existente foi para a defensiva, mesmo aquela que rejeitava a vida soviética. Pois bem: o fundamentalismo voltou, exatamente pelo mercado. As seitas econométricas e as regras de governança corporativa confiável, que arrastaram o mundo para uma crise sem fim desde 2008, continuam suas diatribes. O eleitorado vota contra elas, aqui e na Europa, e não adianta? Estamos condenados a jogar nas regras do adversário? Não há um projeto único do lado oposto ao mercado, quem te a certeza metafísica da história são os defensores da ideologia de planilha e de mercado. É hora de construir outra coalizão. é hora, por exemplo, de mais G20, de mais acordos sul-sul, de mais integração de vizinhança, de lidar com sustentabilidade em relação ao crescimento e emprego, de incentivar políticas que dinamizem a produção, que penetrem fundo em direção aos serviços sociais universais, que combata o rentismo puro e simples. Não há uma ideologia do centro à esquerda que monopolize esta agenda. O campo liberal definiu suas armas e seus generais, centrou força em seu fundamentalismo e se organiza. Isto aparece em seus inflamados discursos, disfarça-se de moralismo, alia-se aos reacionários. O preço é o mundo corporativo dirigindo os rumos da nação. Se as forças do centro a esquerda permanecerem conferindo a esta agenda a predominância, sem utilizar a força politica da democracia em seu favor, o que nos restará? Em quatro anos outra candidatura que se afastará das ruas? Pode ser, mas cada vez mais fraca e cada vez mais sem um programa. 
      Não trata-se de unir o campo, fundar um partido, unificar lutas. Trata-se de pensar como enfrentar o pior inimigo da liberdade, de uma vida social mais justa, para combater desigualdades e melhorar a vida das pessoas. O campo fundamentalista preocupa-se com o acionista. É hora de nos preocuparmos com o cidadão.