É importante recordarmos que um dos maiores desafios da democracia contemporânea é a participação, o que produz um paradoxo conhecido: abrem-se os espaços políticos e o nível de atuação dos agentes envolvidos decresce formidavelmente. Os diagnósticos são variados, mas há um acordo sobre o volume decrescente da participação em canais classicamente estabelecidos - sindicatos, associações, partidos.
Há também outra posição, aquela que defende que estamos diante de uma nova ágora, um espaço de participação de abertura inédita: a sociedade em rede, conectada pela internet. Outros creem que isto é uma realidade tão forte que a "primavera árabe" poderia ter sido provocada pela atuação na rede e nos celulares. A recente crise na Síria é outro exemplo, pois na impossibilidade em confirmar versões, as imagens gravadas por celulares correm o mundo.
Há juízos apressados sobre esta sociedade conectada. Em seu nome já foi decretada a morte do livro, do comércio em lojas físicas, até da eleição no nível da rua. Esta conexão inédita poderia até promover a realização de inúmeros referenduns online, revolucionando a forma de atuar dos agentes e dos eleitores. Agora a rede faz a "revolução", começando em casa e ganhando as ruas. Alguns apressados intelectuais de esquerda, aqui e alhures, logo se agitam em nome de movimentos que realizam-se fora dos canais institucionais, nas ruas e praças, criando novas formas de atuação.
Novas formas existem, é inegável. Claro que a internet é um meio para convocação e atuação. Mas, o que foi feito deste movimento no Egito? As eleições consagraram um líder que pouco entusiasmo provoca na Praça Tahrir, os militares bloqueiam o congresso, nenhum dos candidatos mais ligados ao movimento foi ao 2°turno eleitoral.
O mais importante movimento em curso no mundo, do ponto de vista de uma sociedade crítica, é o Occupy Wall Street. Em várias cidades americanas eles estão presentes, espalham-se pelo mundo (em SP havia alguns recentemente) e tem sido um contraponto crítico fenomenal na rede e AQUI temos um exemplo desta lógica, com o argumento da associação entre bem-estar e os Founding Fathers americanos e mostrando que as cláusulas de bem-estar não podem ser violadas por qualquer interpretação. Mas, ressalta o autor mencionado no link acima:
a filosofia da liberdade não depende de qualquer texto escrito, ela vive e reside dentro de cada indivíduo em virtude da sua humanidade, não em virtude de qualquer governo.Portanto, ao lado de um manifesto em defesa do bem-estar, declarações quase " anarquistas". E nos termos de um individualismo despótico que não seria estranho aos liberais do calibre de Nozik. Será coincidência?
Esta é mais uma etapa da espetacularização da vida individual. Todos se importam, todos são importantes, todos trocam experiências, todos falam de si, todos podem escrever poesias, se lamentar, se irritar e até amar online. O recesso da esfera pública "física" permanece, mas, dizem alguns apressados, em nome de uma nova esfera pública, agora virtual. Nova vida? ainda é muito cedo. Nova ágora? O dia ainda nem começou a clarear.
E, por que diabos tantos problemas com as instituições? O sistema eleitoral não será substituído com facilidade pela ágora virtual, o jogo da política não sera substituído pelo jogo do teclado, as pessoas não ganham as ruas porque os 140 caracteres do banalizado Twitter assim "empurram". São as regras institucionais que estabelecem parâmetros e organizam interesses, são as firmas, indivíduos, grupos e classes que se organizam em locais reais e disputam o poder. Grupos fazem lobby e greve, organizações administram gigantescos recursos materiais e humanos, partidos se estruturam buscando o poder e interagindo com tudo isso. Occupy Wall Street é muito interessante, os celulares na Síria e no Egito são ferramentas fundamentais, a internet é indispensável para mobilizar, arrecadar, atrair pessoas. Mas, sem a canalização desta energia para a mudança institucional, para ocupar o poder, para estimular estabilidade e regras de convivência, surge a utopia anarquista, a ilusão da "revolução" com as massas ou, pelo lado conservador, o fim da política e da esquerda substituída pela "sociedade dos indivíduos". É disso que se trata?